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Exemplo

A vida em uma viagem de trem

06 Julho 2018 10:12:00

Bombeiro mais velho em atividade no Brasil dá show de sabedoria, vigor e positividade

Foto: Janaina Possamai

ASCURRA - Otaviano de Souza Campos, 74 anos, é daquelas pessoas únicas, capazes de transformar o ambiente em volta e extrair o melhor das pessoas. No auge das mais de sete décadas de vida, acumula lições de perseverança e doação ao próximo, uma viagem que o levou de caminhoneiro à empresário e bombeiro voluntário. Aliás, o bombeiro mais velho em atuação em todo o país.

"Foi exatamente no dia 31 de março de 1944 que subi neste vagão. Eu cheguei na estação e encontrei alguém, um senhor de idade, então perguntei a ele: quem eu sou e o que eu estou fazendo aqui? Ele pediu que eu me acalmasse e contou que era ele quem havia me trazido aqui e que eu tinha uma missão a cumprir. Então, entregou uma passagem em minhas mãos e disse para que corresse, porque o trem já estava saindo da estação. Assim o fiz, me apressei para subir no trem da vida. Já dentro daquele vagão, fui avisado que pararíamos em diversas estações e que algumas pessoas desceriam e outras subiriam. Estes seriam os parceiros de viagem", explica ele demonstrando imenso carinho por estes amigos de caminhada.

Com simpatia, conta ele que os pais biológicos desceram em determinada estação, então subiram no vagão seus pais adotivos. Algumas paradas à frente, seu segundo pai também deixou o trem, mas a mãe permanece viajando com ele até agora. Tornaram-se companheiros de viagem a primeira esposa, com quem teve duas filhas e depois a segunda esposa. Otaviano adotou ainda três crianças e teve mais um filho biológico. Uma grande família que acende o olhar do valente bombeiro ao ser mencionada.

Estação Militar 

A primeira experiência profissional de Otaviano foi aos 14 anos, como caminhoneiro. "Naquela época menores de idade podiam tirar carteira de motorista amador. Trabalhei com isso por muito tempo e aprendi tudo que podia. Até que em determinado momento aquilo não dava mais para mim. Meu pai então conseguiu um trabalho para mim no Complexo Hidroelétrico que compreende as usinas de Jupiá e Ilha Solteira, no Mato Grosso, divisa com São Paulo. Lá também aprendi tudo que podia e cheguei a gerenciar uma equipe de 70 funcionários, isso dos 18 aos 21 anos. Em seguida o Exército me chamou e fui para lá".  

Uma das características de Otaviano é a de mergulhar de cabeça em todas as oportunidades ofertadas pela vida, assim também ocorreu no período de carreira militar. Foi reconhecido e premiado inúmeras vezes e quando surgiu a oportunidade de prestar concurso para sargento, não pensou duas vezes. Passou, foi chamado e continuou firme. "Pensei: agora ninguém mais me segura".

Estação escoteiros

Foi dentro do Exército que o voluntariado chamou por Otaviano uma primeira vez. "Meu superior me chamou e disse que eu tinha perfil para trabalhar com os escoteiros. Isso fez parte da minha vida por muitos anos. Até que acabei quebrando a perna em um salto de paraquedas. Tive que parar, então entrei para o Centro de Valorização da Vida (CVV). Chegou um momento em que meu filho precisava de atenção e resolvi deixar as atividades para me dedicar a ele.

Estação Indaial

Quando deixou o Exército, Otaviano se mudou para Indaial com a filha de nove anos, para um sítio na localidade do Warnow. Foi então que o voluntariado o chamou mais uma vez. "Ela trouxe um bilhete do diretor da escola me convidando para uma conversa, o motivo era o convite para assumir o comando da Associação de Pais e Professores (APP). Pensei um pouco e aceitei, fui eleito e depois reeleito. Na época em que a reeleição nem era prevista pelo regimento. Conseguimos muitas coisas, sala de computação, reforma de mobiliários e até a construção do Ginásio de Esportes", orgulha-se.

Em seguida, ele precisou passar então por uma cirurgia para colocação de prótese no quadril. Quando estava em casa, em Blumenau, foi convidado por um amigo para tornar-se sócio da empresa Corrente da Vida Treinamentos e Cursos LTDA.

Estação Bombeiros

Foi por conta do trabalho que Otaviano, há seis anos, realizou o curso de Bombeiro Voluntário. "Eles nos pediram para fazer, porque nós damos cursos preparando as pessoas para atendimento pré-hospitalar e combate à incêndio, além de todas as NR's, mas nada substitui a prática". Mal sabia Otaviano que a partir daquele dia formaria uma intensa ligação com o Corpo de Bombeiros Voluntários da União.Atualmente ele mora em Porto Belo, por conta da logística da função desempenhada por ele dentro da empresa, que atende daquela cidade até Joinville, mas as paradas no CBVU fazem parte da essência de Otaviano. "Aqui é minha segunda casa. São exigidos quatro plantões por mês, mas eu gostaria de poder estar aqui ao menos uma vez por semana. Para mim o voluntariado é uma questão de qualidade de vida", revela.

Para determinar se Otaviano realmente é o bombeiro mais velho em atividade, o comando do CBVU montou uma comissão para pesquisar. Confirmada a suspeita, ele recebeu uma homenagem e reconhecimento. Foi ainda promovido a líder de equipe. "Para mim é um grande orgulho fazer parte desta corporação. Todos aqui estão de parabéns, o comando também só merece elogios, é fora de série", conclui.

Cidadão honorário 


Janaina Possamai/

Em Sessão Solene na Câmara de Vereadores de Ascurra, os Bombeiros Voluntários da União (que atendem a cidade de Ascurra, Apiúna e Rodeio) receberam uma moção de aplausos. Além disso, o comandante da Corporação desde a criação, Jaime Júnior Moser, recebeu o título de cidadão honorário de Ascurra.

Durante o pronunciamento, Moser relembrou das dificuldades enfrentadas no início e relembrou os colegas que integram a equipe desde a criação. Também relembrou os colegas que já partiram em uma homenagem à contribuição que deixaram para a corporação. "Até dezembro de 2017 atendemos 32.887 ocorrências, mais de 40 mil pessoas. Rodamos ao menos dois milhões de quilômetros. São números que comprovam a grandeza dessa instituição, que é a morada dos bravos que se doam por um simples obrigado", ressalta Moser.



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