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O que se leva da vida...

13 Maio 2018 15:27:00

Úrsula Maria Kretzer ensina as lições coletadas ao longo de mais de oito décadas

Foto: Janaina Possamai

INDAIAL - No auge de seus 82 anos de pura vitalidade, Úrsula Maria Kretzer recebe nossa reportagem no apartamento onde mora, em Indaial. "Parabéns", diz ela com um sorriso amistoso, para logo em seguida explicar as felicitações: "Você marcou para às 14h e chegou 13h55min, no horário". O comentário inicial dá conta da personalidade exigente e gentil da mulher que serviu aos indaialenses como funcionária pública por 45 anos, tanto na Prefeitura quanto na Câmara de Vereadores.

Úrsula conta que o caminho até chegar à função foi árdua e que precisou aprender a ser forte para lidar com as intempéries impostas pela vida. Logo aos nove anos de idade ficou órfão de pai, morto após um acidente de trabalho. "Um dia antes de morrer, ele pediu à minha mãe que viesse de Timbó a Indaial, de bicicleta, para me buscar, pois queria se despedir de mim", relembra.

Passos firmes

Daí por diante a vida de Úrsula, da mãe e dos dois irmãos não foi fácil. Quando se formou no Ensino Complementar (equivalente ao Ensino Médio), foi a primeira colocada, com as melhores notas, no entanto, não recebeu o reconhecimento. "A diretora me chamou e disse que daria o prêmio a outra moça, porque esta teria a promessa de receber como presente um relógio de pulso e, já que minha mãe era uma pobre viúva que não teria como me presentear com nada, o prêmio iria para a outra garota. Questionei se minhas notas seriam alteradas, a diretora disse que não. Então engoli em seco e disse que ela poderia dar o primeiro lugar para quem quisesse".

Essas e muitas outras situações conferiram a Úrsula uma força incomum, a moça tinhosa brigou muito pelo que queria e se dedicou de corpo e alma desde o princípio. "Minha mãe conseguiu um emprego para mim em uma tabacaria, disse a ela que lá eu não ficaria. Quando entrou para conversar com o gerente, fugi para casa. Naquele dia apanhei, mesmo assim, me neguei a aceitar o emprego. Então, ela perguntou onde eu desejava trabalhar, fomos conversar com Theobaldo Costa Jamundá, que na época servia à Câmara de Vereadores e à Prefeitura, no entanto, para trabalhar lá precisaria ter curso de datilografia", conta.

O tal curso não existia em Indaial, apenas em Blumenau, no Colégio Sagrada Família, administrado na época por freiras. Na companhia da mãe, Úrsula foi até o local para tentar uma vaga. O acordo foi que trabalhasse para pagar as aulas. Então, as tarefas começavam cedo e iam até tarde.

Em posse do diploma, foi até Jamundá insistentemente, semana após semana, até que ele a contratasse. Foi em 22 de outubro de 1951 que iniciou as atividades na Prefeitura. Após nove anos de muito aprendizado com o então mentor, assumiu a função quando ele solicitou uma licença e resolveu ir para Florianópolis. Anos depois, com a decisão de Jamundá de se afastar definitivamente, foi nomeada efetiva.

Com o passar do tempo, o crescimento da cidade e desmembramento de Ascurra e Apiúna, mais pessoas foram contratadas e iniciava-se o período de passar para frente tudo que havia aprendido. "Eu amava o que fazia e me dediquei de corpo e alma a isso".

Coragem

A mulher de espírito livre continuou enfrentando muitas situações desafiadoras. Na vida profissional, aprendeu a lidar com os políticos sem olhar para siglas partidárias, mas sim para as pessoas que lá estavam para representar Indaial. Com isso, aprendeu a entender melhor as pessoas e as personalidades divergentes. No âmbito pessoal, superou três tentativas de adoção de meninas, que falhavam muito próximo da conclusão do processo. "Adianta chorar? Adianta espernear? Não era para ser e pronto. O que eu levo da vida, é a vida que eu levo, então eu tenho que fazer dela o melhor possível".

Foi aos 60 anos, por meio do trabalho, que conheceu o marido. São anos dos quais se lembra com carinho. Hoje, com a partida do companheiro, mora sozinha, acompanhada pelas lembranças e registros históricos. São papéis, bilhetes e uma memória perfeita a favor da mulher que nunca teve medo de enfrentar as adversidades e de tirar do mundo o que ele tinha de melhor a oferecer, até mesmo durante os momentos amargos.

A máquina de escrever, companheira de uma vida, tem lugar de destaque na casa, assim como a placa de identificação que ficava no gabinete de Úrsula, que encerrou sua carreira como Diretora de Administração em 1996, mas que continua a contribuir para a preservação da história de Indaial, como parte da equipe do periódico Indaial Conhecendo sua História. Além disso, é voluntária da Rede Feminina de Combate ao Câncer e não nega suporte a amigo nenhum. Cita diversos deles durante a entrevista, trazendo à tona doces memórias.

Ao conversar com ela por pouco mais de uma hora, fica fácil entender porque Úrsula já foi personagem de livros publicados sobre a história da cidade. As lições e os conhecimentos que têm a passar são imensos, do tamanho do coração da tinhosa mulher que leva consigo um mantra: "O que se leva da vida, é a vida que se leva".


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