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Especial

Recordar é viver

17 Agosto 2018 10:13:00

A época do transporte ferroviário traz muitas lembranças a Dona Clementina, personagem dessa história

Foto: Foto cedida por Clementina da Silva, do arquivo pessoal de João Cardoso

INDAIAL - "A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu, e ela não perde o que merece ser salvo". Com essa frase de Eduardo Galeano, podemos refletir que as memórias não são só momentos vividos, mas sim parte da nossa história que compõem a essência de cada ser humano.

Com essa pequena introdução, iniciamos nossa matéria especial falando quem é dona Clementina da Silva, de 78 anos, que mora em Indaial há mais de 58 anos. Anteriormente ela residia em Laurentino, cidade próxima a Rio do Sul, onde morava com sua família que é toda de descendência italiana. Seus bisavós vieram da Itália na época da Primeira Guerra e construíram suas vidas no Brasil. Hoje, Albertina, mãe de Clementina, tem 105 anos e está prestes a completar 106, em setembro. 

Em 1960, Clementina conheceu o marido, Herculano Cardoso (in memorian) na cidade de Laurentino, tempo antes de mudar-se para Indaial. O curioso é que esta história de amor só se tornou possível graças ao trem. Eles se viram pela primeira vez quando Herculano foi visitar a casa de Clementina, com 18 anos na época, pois suas famílias tinham grau de parentesco, eram primos de terceiro grau. "Nos conhecemos e logo já namoramos, noivamos e casamos. Começamos a namorar no dia 13 de junho e já no dia 3 de setembro, estávamos casados", conta Clementina, que ri falando sobre a história. Clementina e Herculano tiveram três filhos: um menino e duas meninas. Hoje, já têm cinco netos e dois bisnetos. 

Como os dois moravam em cidades diferentes antes do casamento, a única maneira deles se encontrarem era utilizando a linha do trem, que na época, era o meio mais fácil e barato para viajar para cidades vizinhas, uma vez que os ônibus não eram populares na época. "Quando ela se casou, ver um ônibus era muito raro. Como não tinham estradas, quando chovia os veículos ficavam atolados e precisavam ser puxados por cavalos para não ficar ali", explica Eliseu da Silva Cardoso, filho  mais velho de Dona Clementina.  

Fato inusitado

Quem diria que nos meados dos anos 60 já era possível vender o próprio cabelo. Pois então, dona Clementina, vendeu seu cabelo preto e ondulado em 1962, logo após ter tido seu primeiro filho. O cabelo batia na metade da coxa, segundo ela.

Época da ferrovia

A estrada ferroviária de Indaial, inaugurada em 1909, fazia transporte de carga e pessoas pela região e a família Cardoso, imprescindivelmente, utilizava a linha para visitar parentes. "A gente ia visitar o pai e a mãe que moravam em Laurentino, de trem. Embarcávamos às 3h da tarde e chegávamos lá às 9h da noite, depois ainda tinha que andar a pé, com os filhos no colo, para chegar até a casa", diz Clementina, que lembra desses momentos em família.

O pior mesmo, era quando faltava "combustível" no trem e ele tinha que voltar para "reabastecimento". "Às vezes faltava água e lenha e quando chegávamos na serra, o trem tinha que voltar pois não tinha mais força para subir. Aí ele voltava de ré, descia a serra para que então pudesse reabastecer", relembra Eliseu, que vivenciou várias vezes essa mesma situação.

Na época, seu João Cardoso (in memorian), cunhado de Dona Clementina, trabalhava na ferrovia, que exigia muita força física, pois não havia nenhuma máquina. "Era só braçal mesmo, na ferrovia os homens de pulso forte que faziam o trabalho. Não tinha, por exemplo, máquinas para carregar, era carroça, carretão, não havia caminhões", frisa Clementina.

Para Clementina o filho mais velho não tinha cara de que aprontava, por isso se surpreendeu, durante a entrevista, quando ele contou o que fazia na época em que morou em Joinville. "Quantas vezes peguei o trem de Joinville a Jaraguá ou até Corupá de graça. Ia escondido dentro do trem. E ainda tinha a adrenalina, pois os fiscais poderiam pegar".

Lá em 1971 a ferrovia encerrou suas atividades e não se sabe ao certo quais os motivos do fechamento. Eliseu conta que até estavam construindo um túnel na serra atrás da igreja para o trem passar. "Onde era o Ebert Materiais de Construção, um pouco para lá, eles estavam fazendo um túnel, tanto de um lado quanto do outro. Se você passar a igreja, na rua Fritz Muller, vai encontrar o outro lado do túnel". Ele acredita que um dia a ferrovia possa voltar à suas atividades. 

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