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Só por hoje

03 Maio 2018 11:29:00

Metodologia utilizada em comunidade terapêutica de Indaial auxilia dependentes químicos a recuperarem suas vidas

Foto: Janaina Possamai

INDAIAL - "Faço uso de maconha desde os 14 anos de idade, mesma idade com que comecei a namorar. Induzi minha namorada a utilizar também e assim foi. Tive um contato breve, nesta época, com cocaína e crack, mas conseguimos permanecer por bastante tempo apenas com a maconha. Aos 23 anos tinha tudo o que uma pessoa podia querer, estava casado com a melhor esposa do mundo, tinha um ótimo emprego com bom salário e estava me formando na faculdade. Então, no fim de 2008 meu pai adoeceu, foi internado em dezembro e faleceu em fevereiro. Do maconheiro da família virei o homem da casa, com muitas responsabilidades e cobranças. Minha mãe teve depressão e para todos os problemas eu buscava refúgio nas drogas, usando cada vez mais e mais.

Nesta altura já estava na cocaína, sempre acompanhado de minha esposa, e depois de alguns meses passamos para o crack. Tentando abraçar o mundo, com trabalho, estudo, família, comecei a me drogar praticamente 24 horas por dia, enquanto meu corpo aguentava. Eu tinha dinheiro para sustentar o vício, até que em determinado momento ele acabou. Quando me dei conta estava vendendo drogas para sustentar o vício e um dia acordei na cadeia.

Foram dois anos, quatro meses, 17 dias, 12 horas e seis minutos lá dentro. Jamais esquecerei, chorei todos os dias naquele lugar. Enquanto estive preso, enfrentei muitos problemas no meu casamento e quando saí alternávamos períodos em que estávamos mais ou menos bem com aqueles em que estávamos separados e eu afundado no uso de entorpecentes. Nos separamos definitivamente depois de cerca de três anos. Vendi minha casa e torrei todo o dinheiro, no ano retrasado gastei quase R$ 200 mil em drogas, prostituição e tudo que possa haver de errado. Além do dinheiro, foram muitos carros e motos. Essa foi minha vida por mais de três anos. Fiz uma cirurgia na coluna que me impediu de voltar a trabalhar, piorando ainda mais as coisas. Quando retornei havia utilizado tanta substância que estava fraco e com imunidade baixa, então fraturei o fêmur, mais um ano afastado do trabalho. Em novembro de 2016 estava no fundo do poço, nem minha mãe me queria mais morando junto com ela.

Não estava trabalhando e tive o benefício cortado. Ela permitiu que eu morasse em uma dispensa nos fundos da casa, mas eu fui para a nossa casa na praia. Lá, me desfiz de muitas coisas da residência e sabia que dali não teria mais para onde ir a não ser a rua".  

Esta é a história verdadeira de Alexandre de Souza, de 34 anos, ou melhor, uma parte dela. Resolvemos pausá-la neste ponto porque alguns dos que estão lendo esta reportagem podem estar vivendo-a neste exato momento. Seja em papel semelhante ao de Alexandre, ao de sua mãe, esposa, irmão, chefe ou amigo. É importante que o leitor nos acompanhe daqui por diante, pois, como dissemos, esta é apenas uma parte, talvez a mais dolorosa, da história. Mas ela, definitivamente, não encerra por aqui. Nos acompanhe nas próximas páginas.  

O pedido e a

Alexandre conta que já havia passado por uma clínica duas vezes, mas sem o resultado desejado e após tantos anos utilizando narcóticos, temia que ninguém acreditasse nele. "Pedi ajuda a um amigo que conheci na cadeia, nos reencontramos aqui fora e chegamos a usar drogas juntos. Mas ele havia parado, estava casado há mais de um ano e tinha conseguido retomar sua vida. Ele passou aqui na frente (do Crad) e sentiu em seu coração que deveria parar. Conversou com Volnei e depois foi até a casa da minha mãe, que mesmo sem saber de muita coisa, aceitou conhecer o Centro. Eles entraram em um acordo e foram me buscar na praia".


Janaina Possamai/

O Crad

Volnei Gomes, com quem o amigo e a mãe de Alexandre conversaram é fundador do Centro Reabilitação Álcool e Droga (Crad) de Indaial e hoje desempenha o papel de coordenador de tratamento. Fundar a comunidade terapêutica estava nos planos dele desde que conheceu a metodologia de trabalho entre os anos de 2009 e 2010 no Rio Grande do Sul. O contato de Gomes com a metodologia americana "Day Top", o melhor dia em tradução livre, ou só por hoje, deu-se da forma mais profunda possível.

Ele sofreu com a dependência química por 24 anos. Encontrou a comunidade terapêutica e permaneceu lá por dois anos e nove meses. Entrou como residente, ou seja, um dependente químico em recuperação, e quando saiu já estava ajudando na administração do local.

Após receber insistentes propostas para gerir uma empresa em Blumenau, resolveu mudar-se para o Vale do Itajaí com toda família. Na época, ele e a esposa Taíse tinham traçado um plano, Volnei trabalharia na empresa por 10 anos, até ter aporte financeiro suficiente para montar uma comunidade terapêutica. "As coisas começaram a acontecer muito rápido, de gestor passei a dono de uma franquia, com ótimos resultados. Resolvemos que era o momento e entrei em contato com outras pessoas para receber orientações de como deveria proceder. Foi esta pessoa quem me disse que Indaial gostaria de ter um Centro de Reabilitação. Fomos então conversar com o prefeito, que na época era o Sérgio Almir dos Santos, Serginho, recebemos também a ajuda do deputado Ismael dos Santos. Em seguida montamos o Centro de Reabilitação de Álcool e Drogas (Crad)".

Atualmente, o Crad possui duas unidades na cidade. A comunidade é independente, sem qualquer ligação com o poder público ou instituições religiosas. O Centro possui 40 vagas, 10% delas são destinadas a pessoas que não têm condições de arcar com os custos do tratamento, no entanto, neste momento, o número de residentes oriundos de vagas sociais é de 11, muito superior a este percentual. "Tivemos a ajuda de muitas pessoas, inclusive de outras comunidades terapêuticas, pois somos pioneiros nessa metodologia de trabalho no Vale e Norte de Santa Catarina. Todas as comunidades terapêuticas desta região são ligadas a instituições religiosas".

Volnei explica que a base do tratamento é a espiritualidade, mas outras ramificações precisam ser observadas, sobretudo a doença clínica em si.

Day Top

É uma metodologia norte-americana que veio para o Brasil em meados de 1980, mais precisamente para São Paulo. Em 1986 fundou-se no Rio Grande do Sul, na cidade de Viamão, uma comunidade terapêutica chamada Senhor Jesus, tendo como linha de tratamento a Day Top. "Atualmente no Rio Grande do Sul nós temos em torno de 160 comunidades trabalhando nessa metodologia".

Além de observar a cura espiritual, a equipe multidisciplinar trata da doença em si. "Ela é crônica, lenta, progressiva, de término fatal e não tem cura, apenas controle. Nós ensinamos o indivíduo a controlar através da espiritualidade, mas também por meio de ferramentas como: Alcoólicos Anônimos (AA), Narcóticos Anônimos (NA), Amor Exigente, Prevenção à Recaída e o estudo da doença com o nosso médico dr. Gustavo Leite e com a psicóloga dra. Maira Tartare".

"No início foi muito difícil, as duas clínicas em que eu havia ficado eram evangélicas, o tratamento era baseado apenas na palavra de Deus. Então meio que fiquei apavorado com tudo que vi aqui: literatura de 12 passos de AA, Amor Exigente, prevenção à recaída, enfim, uma série de ferramentas que hoje eu sei que são essenciais para que eu permaneça de pé. Fiz o tratamento por sete meses, fiquei na comunidade por mais um mês e meio e comecei a receber propostas de emprego, então saí", revela Alexandre.  

Volnei conta que o Crad segue rigidamente as exigências da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract) órgão que regimenta a atividade das comunidades terapêuticas no Brasil. "Temos a unidade um, que já completou dois anos, onde funciona nossa triagem. O indivíduo permanece aqui por um período de 20 a 30 dias, enquanto conhece nossas regras, faz exames clínicos para verificar se possui algum problema de saúde, pois a maior parte deles chega até nós com alguma enfermidade em um dos quatro órgãos mais prejudicados pela dependência química (rins, pâncreas, coração e fígado), e inicia a parte mais difícil do tratamento, que é a desintoxicação. Após este período segue para a unidade dois, que completará dois anos em julho".

O tratamento dura entre sete e 12 meses. "Com cinco meses o indivíduo é avaliado e pode ou não passar alguns dias em casa, com seis meses novamente e com sete meses conclui o tratamento, podendo ser solicitado a ele o reforço, caso esteja muito "verde" para ir para a rua". Todos estes processos fazem parte da reinserção social, uma vez que a pessoa precisa estar preparada para o dia a dia fora da comunidade.

Atualmente onze profissionais trabalham no Crad de Indaial, um médico e uma psicóloga, já citados anteriormente, e mais nove terapeutas. Destes, oito foram tratados pelo Crad, ou seja, são dependentes químicos que após concluírem o tratamento, foram encaminhados para um órgão profissionalizante e retornaram para trabalhar na instituição. Alexandre e Antony Oliveira Lusitano, de 30 anos, são exemplos disso. O nono terapeuta, coordenador da equipe, é Evandro Valério, responsável por tratar Volnei há muitos anos, no Rio Grande do Sul.


Janaina Possamai/

Ciclo de recaídas

Antony é dependente químico há 10 anos, mesmo período em que iniciaram as tentativas de recuperação. A primeira internação foi aos 19 anos, mas ele permaneceu na clínica por apenas 20 dias antes de pedir desistência. Após um mês veio a recaída, um novo tratamento de três meses, nova desistência e mais uma recaída. O processo se repetiu por um logo tempo até que iniciou o tratamento no Crad. "Pela primeira vez entendi o que era a dependência química e que eu era portador de uma doença. Entendi também que deveria dar continuidade ao programa, então fiz diferente das demais vezes e permaneci. Faz 10 meses que estou na comunidade, após concluir o tratamento me tornei monitor".  

Permanecer de pé é a expressão utilizada para definir os dependentes químicos que conseguem se manter longe das substâncias. Porém, a recaída é algo que só pode ser evitada com a manutenção. "Nós dependentes químicos não podemos simplesmente fazer o tratamento e nos afastar. Precisamos da manutenção através da visita em comunidades terapêuticas, o que chamamos de respirar um ar de fazenda, além da participação em reuniões e grupos de ajuda", reitera Volnei.

Alexandre aprendeu isso na pele. Após aceitar a proposta de emprego e deixar o Crad, dois meses se passaram até ele recair. "Usar a droga ou o álcool é só a cereja do bolo, hoje eu sei que a recaída começa muito antes, quando você deixa de praticar o tripé da recuperação que é oração, trabalho e disciplina. Eu sabia que o programa funcionava, quem não funcionou fui eu. Então, quando recaí, corri de volta para cá. Agora decidi que vou permanecer trabalhando aqui, você não pode querer resultados diferentes fazendo as mesmas coisas, vi que preciso mudar. Além disso, entendo tudo o que se passou, talvez não consiga ensinar aos meus irmãos de caminhada como devem ficar de pé, mas posso dizer a eles como não recair".

 A estatística geral da Febract é de que 13% dos dependentes químicos tratados permanecem de pé. No dia 13 de maio deste ano, mais três residentes concluirão o tratamento, somando o número de 39 homens egressos do Crad, destes, 27 permanecem de pé, ou seja, não voltaram a utilizar nenhum tipo de substância, representando quase 70% dos que foram tratados no local. "Isso para nós dá um ânimo muito grande".

Eu te amo, mas não aceito o que você faz de errado

O título deste tópico diz respeito ao lema do Amor Exigente e trata de um assunto delicado: como a dependência química afeta àqueles emocionalmente ligados ao dependente? Volnei explica que a co-dependência não é reconhecida como uma doença pela Organização Mundial da Saúde, mas é exatamente o que ela é: uma doença que precisa ser tratada. "As pessoas que estão emocionalmente ligadas ao dependente adoecem no momento em que param de viver suas próprias vidas e passam a viver a dele. Pode ser uma mãe que fica se perguntando se o filho voltará vivo para casa ou até mesmo um chefe que passa a noite imaginando se o funcionário virá trabalhar ou não no dia seguinte. E isso precisa ser tratado para que estas pessoas, inclusive, não virem facilitadoras de uma futura recaída".

Antony conta que iniciou o uso de narcóticos indo direto ao consumo de crack. Por algum tempo conseguiu ainda trabalhar, mas todo o salário era investido na compra de drogas. "Quando não conseguia mais trabalhar, comecei a roubar dentro de casa, pois entendia que minha mãe não me denunciaria e lá fora eu tinha medo de apanhar, ser preso ou morto", relembra ao exemplificar como sua família foi impactada pela doença. "Minha família também se tratou, recentemente tive minha primeira semana em casa após 10 meses e foi muito bacana. Hoje eles sabem que há coisas que precisam ser evitadas, e sim, ainda existe alguma desconfiança. Mas isso é algo que cabe a mim conquistar ao longo do tempo". 

Alexandre também está recuperando o convício familiar aos poucos. "Foram 20 anos de drogadição, de destruição, de mentira, 20 anos roubando o sossego da minha família e o sono da minha mãe, então não será em um ano abstêmio que as coisas irão se resolver. A droga te faz adquirir muitos defeitos de caráter e isso prejudica a família. Mas, estou recuperando o convício com as minhas irmãs e com minha mãe aos poucos. Todos me amam assim como eu os amo, mas não aceitam o que eu fazia de errado".

O Crad possui também um Grupo de Apoio e Mútua Ajuda (Gama), que pode ser frequentado gratuitamente por quem desejar. Geralmente estão presentes familiares de dependentes químicos que estão em tratamento, familiares de dependentes químicos que já fizeram o tratamento, dependentes químicos em recuperação e pessoas que estão procurando ajuda. As reuniões acontecem às terças-feiras, às 19h30min, no Centro de Atenção à Família, em um ambiente que foi cedido pela Igreja Batista (PIB), que fica na rua Massaranduba, 82, quase esquina com a Avenida Brasil, no bairro Rio Morto. Importante reforçar que é gratuito e qualquer pessoa pode participar.

"Aprendi que não se mede fundo de poço, você pode buscar ajuda após perder tudo ou com sua família e seus bens ainda presentes, o sofrimento não tem medida nem comparação. Mas o que posso dizer é que há saída para todos", conclui Alexandre.


Janaina Possamai/

Serviço

Quem desejar buscar informações ou ajuda, deve se dirigir à unidade um do Crad, que fica no quilômetro 66 da BR 470, na rua Araucária, 3333. Atualmente o Crad tem como presidente a esposa de Gomes, Taíse. Além de comparecer à unidade, é possível encontrar diversos textos escritos por ela com informações sobre a dependência química, quais os sinais, quais as dificuldades e muitos outros aspectos entrando na página do Crad no Facebook.





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